REFERÊNCIA E
COGNIÇÃO
Por João Branquinho
Capítulo I - Referência e Conteúdo
Secção 2
- Teorias do Conteúdo
Dois grandes pontos de vista rivais e
mutuamente inconsistentes sobre a natureza do conteúdo têm ocupado nos últimos anos uma
posição saliente na discussão efectuada na área. Cada um desses pontos de vista não
deve ser tomado como consistindo numa teoria ou doutrina filosófica particular, mas antes
como subsumindo um vasto espectro de posições particulares as quais, apesar das
diferenças por vezes substanciais que as separam, são suficientemente semelhantes
com respeito a certos aspectos nucleares para poderem ser vistas como formando uma
família de teorias do conteúdo.
Por uma questão
de conveniência, os pontos de vista em questão são identificados como ponto de vista Cognitivista
ou Fregeano e ponto de vista Referencialista, da Referência Directa,
ou Milliano. Alguns dos rótulos sugerem imediatamente filiações
históricas dos pontos de vista nas doutrinas filosóficas e semânticas expostas por
Gottlob Frege e John Stuart Mill (respectivamente). No entanto, e apesar de haver
certamente um grão de verdade em tais correspondências, convém salientar que a nossa
tarefa não é de todo, nem parcialmente, de natureza histórica ou exegética (1). Queremos avaliar certas doutrinas situadas no espaço lógico,
por assim dizer e examinar criticamente determinados argumentos a seu favor; mas
queremos em geral fazê-lo independentemente da existência de quaisquer figuras, na
história do pensamento, que as tenham de facto subscrito. Determinar se Frege foi de
facto um Fregeano (no sentido a seguir especificado), ou se Mill foi de facto um Milliano
(no sentido a seguir especificado), pode ser um exercício interessante; mas é
completamente irrelevante para os nossos fins. Não é assim surpreendente que muitas das
teses e ideias introduzidas como exemplificando o ponto de vista Fregeano, ou o ponto de
vista Milliano, estejam presumivelmente longe de poder ser correctamente atribuídas a
Frege, ou a Mill.
É útil e
sugestivo delinear o contraste entre as duas concepções, embora de uma forma ainda
provisória e a ser oportunamente refinada, em termos da maneira como em cada uma delas é
vista a conexão entre aspectos relativos ao conteúdo, linguístico ou mental, e aspectos
relativos à mente e à cognição (2).
Todavia, antes
de o fazer, é conveniente dar uma vista de olhos por um terceiro grande ponto de vista
sobre a natureza do conteúdo, um ponto de vista com origem na chamada semântica de
mundos possíveis (3). Embora, como vamos ver, a designação não
seja completamente feliz, chamamos a essa concepção intensionalismo modal (4). Apesar de terem gozado de um certo prestígio durante algum
tempo, as teorias intensionalistas modais do conteúdo parecem não ter grande aceitação
nos tempos que correm. Uma das razões para tal é a de que, parcialmente em virtude da
sua rejeição da suposição adoptada na Secção 1 (1.14) de que proposições são
constitutivamente dotadas de uma estrutura interna, essas teorias conduzem a uma
discriminação de conteúdos tão rude que é tomada por muita gente como um sinal claro
de uma deficiência irremediável. A adopção da suposição acerca da estrutura é algo
que é comum às teorias referencialistas e cognitivistas, separando ambas do
intensionalismo modal e tornando-as aparentemente imunes àquele género de deficiência.
Com vista a caracterizar o
intensionalismo modal, precisamos de introduzir com algum detalhe uma distinção
semântica com profundas raízes na tradição: a distinção entre intensões e
extensões.
Distingue-se
tradicionalmente do seguinte modo entre dois tipos de valor semântico que uma determinada
expressão linguística, de uma determinada categoria, pode ter (5). De
um lado, temos o objecto ou os objectos (caso existam) aos quais a expressão linguística
se aplica, os quais constituem a extensão da expressão; do outro lado, temos o
conceito por ela expresso, ou a representação conceptual de um objecto nela contida, a
qual constitui a intensão da expressão linguística. Exemplos típicos da
distinção são dados em pares de termos singulares do seguinte género. A extensão do
termo singular O Mestre de Platão coincide com a extensão do termo singular
O marido de Xantipa, pois ambos os termos se aplicam a um e ao mesmo
indivíduo, viz. Sócrates. Pode-se a este respeito dizer que a pessoa Sócrates ela
própria é a extensão de ambos os termos; e, de acordo com esta política, aquilo que se
deve dizer acerca de termos singulares como Pégaso e A Fonte da
Juventude é que eles não têm qualquer extensão. Mas é igualmente possível
adoptar a ideia de que a extensão de um termo singular é, estritamente falando, não o
objecto referido pelo termo (se esse objecto existir), mas antes o conjunto-unidade desse
objecto; assim, a extensão comum a ambos os nossos termos singulares seria, não
Sócrates, mas antes o conjunto-unidade de Sócrates. Neste último género de
construção, a não-existência de um objecto referido por um termo singular não faz com
que o termo não tenha uma extensão: esta é identificada com o conjunto vazio; e uma
consequência disto é a de que todos os termos singulares vazios, e.g., O maior
número primo, O abominável Homem das Neves, etc., são co-extensionais
(têm a mesma extensão). Todavia, apesar de co-extensionais, termos singulares como
O Mestre de Platão e O marido de Xantipa diferem manifestamente
em intensão, pois diferem manifestamente em conteúdo conceptual; digamos que a noção
de uma relação pedagógica está presente no primeiro e ausente no segundo, e que a
noção de uma relação de parentesco está ausente no primeiro e presente no segundo.
O mesmo tipo de
divisão de valores semânticos pode-se fazer em relação a termos gerais, como por
exemplo o clássico par humano/bípede sem penas. A classe de
todos aqueles, e só daqueles, objectos aos quais o primeiro termo se aplica é
(presumivelmente) idêntica à classe de todos aqueles, e só daqueles, objectos aos quais
o segundo termo se aplica: os termos são assim co-extensionais; porém, a variação nos
conceitos expressos, ou nas condições que eles impõem para que um objecto pertença à
sua extensão, faz com que esses termos gerais tenham intensões distintas: o conceito
HUMANO não é certamente o mesmo conceito do que o conceito BÍPEDE SEM PENAS. A
predicados diádicos, como admira e é mais pesado do que, também
é possível atribuir extensões e intensões. A extensão de um predicado diádico é
simplesmente uma relação "extensionalmente" concebida, ou seja, um conjunto de
pares ordenados de objectos; assim, a extensão do predicado diádico admira
é o conjunto de todos aqueles pares ordenados de pessoas x e y tais que x
admira y, incluindo deste modo (presumivelmente) o par <Platão,
Sócrates>. A intensão de um predicado diádico é, pelo seu lado, identificada com um
conceito de uma relação; por conseguinte, predicados diádicos como nora e
mulher do filho têm, possivelmente, a mesma intensão. E a distinção é
naturalmente generalizável a predicados de aridade arbitrária e a outros géneros de
expressão, incluindo expressões sincategoremáticas como constantes lógicas e
quantificadores.
Mais recentemente, e sobretudo no âmbito
do agregado de teorias semânticas agrupadas sob o rótulo de semântica de mundos
possíveis, a distinção tradicional foi objecto de uma importante redefinição e
clarificação feitas em termos da ideia de um mundo possível e da relativização
associada de valores semânticos a mundos possíveis (e a outros parâmetros). A
distinção revista é aplicada da maneira abaixo esboçada a categorias centrais de
expressões linguísticas, especialmente às de termo singular, predicado e frase
declarativa.
A extensão de um termo singular
relativamente a um mundo possível m é o objecto nomeado ou denotado pelo termo
com respeito a m; e diz-se que o termo não tem aí qualquer extensão se um tal
objecto não existir. Se o termo singular é uma descrição definida singular flácida
(e.g., O actual Rei de Espanha), então a sua extensão variará de mundo para
mundo (Juan Carlos nuns, outra pessoa noutros, o conjunto vazio noutros); mas se é um
nome próprio ou outro tipo de designador rígido (e.g., Juan Carlos), a sua
extensão será constante de mundo para mundo (Juan Carlos em todos aqueles mundos em que
este exista). Assim, no que respeita a termos singulares, a ideia é simplesmente a de
identificar extensão e referência.
A extensão de um predicado monádico
relativamente a um mundo possível m é a classe de todos aqueles, e só daqueles,
objectos que satisfazem o predicado com respeito a m. É algumas vezes adoptada a
política de restringir a extensão de um predicado monádico num mundo a objectos existentes
nesse mundo, sobretudo se se tratar de um predicado simples ou atómico; nesse caso, se
nenhum existente em m satisfaz o predicado, então a extensão do predicado
relativamente a m é nula (o que, note-se, é o mesmo que dizer que é o conjunto
vazio). Mas também é habitual levantar a restrição e autorizar a inclusão, entre os
membros da extensão de um predicado num mundo, de objectos que não existem nesse mundo
(tais objectos devem, no entanto, existir em algum mundo, e ter assim o estatuto de meros possibilia
em relação àquele mundo); nesse caso, aquela consequência não se segue de todo.
Naturalmente, a extensão de um predicado monádico pode bem variar de mundo possível
para mundo possível, mesmo supondo que os mundos não diferem entre si relativamente aos
objectos neles existentes, mas apenas relativamente às propriedades por eles
exemplificadas; a extensão de filósofo em m pode diferir da sua
extensão em m', e.g., por ser a classe vazia num e uma classe não-vazia noutro,
apenas com base em diferenças relativas às propriedades exemplificadas. E as mesmas
ideias são naturalmente generalizáveis a predicados de aridade n (com n maior
ou igual a 2), com a extensão de um predicado desses num mundo a ser identificada com um
conjunto de n-tuplos ordenados de objectos, designadamente aqueles objectos
não necessariamente todos eles existentes no mundo em questão que estão entre si
na relação correspondente pela ordem indicada.
Finalmente, a extensão de uma frase
declarativa relativamente a um mundo possível m é usualmente identificada com o
valor de verdade supondo a bivalência, o valor V (O Verdadeiro) ou o valor F (O Falso) que a frase recebe relativamente a m;
obviamente, a extensão de uma frase dada pode assim variar enormemente de mundo para
mundo. De notar ainda que, para além da relativização da noção de extensão a mundos,
na semântica de mundos possíveis ou, como se pode também dizer, na semântica de
índices é habitual suplementar uma tal relativização introduzindo outros
tipos de índices ou parâmetros igualmente relevantes (e.g., tempos, locais, etc.).
Assim, por exemplo, poder-se-ia dizer que a extensão de um predicado monádico
relativamente a um mundo m e a um tempo t é a classe de todos
aqueles objectos não necessariamente existentes em m ou em t
que satisfazem o predicado relativamente a m e a t; e a extensão de uma
frase com respeito a m e t é o valor de verdade que a frase recebe em m
e t: a extensão da frase Portugal é uma monarquia com respeito ao
mundo actual e ao momento presente é o valor F, mas é o valor V com respeito ao mesmo
mundo e a um tempo apropriadamente diferente, digamos uma certa ocasião em 1600.
Dada uma tal caracterização da noção
de extensão com respeito aos diferentes tipos de expressão considerados, uma noção
correspondente de intensão é introduzida do seguinte modo. Em geral, a intensão de uma
expressão é identificada como uma função de mundos possíveis (bem como de outros
índice) para extensões apropriadas. Equivalentemente, a intensão de uma expressão é
definida como um conjunto de pares ordenados cujos elementos são um mundo possível m
(ou, em geral, um certo n-tuplo ordenado de índices) e a extensão da expressão
relativamente a m (ou, em geral, a extensão relativamente à combinação desses
índices).
Assim, a intensão de um termo singular
é uma função de mundos para objectos (indivíduos nos casos habituais), uma função
que projecta cada mundo m no objecto (se existir) que é a extensão do termo
relativamente a m. No caso de um designador rígido (e.g., Sócrates),
essa função é constante: o mesmo objecto é feito corresponder ao termo como sua
extensão em todos os mundos (nos mundos onde o objecto não existir nenhuma extensão é
assim determinada); no caso de um designador flácido (e.g., O filósofo que bebeu a
cicuta), a função é variável: diferentes objectos são feitos corresponder ao
termo como suas extensões em diferentes mundos.
A intensão de um termo geral é uma
função de mundos para classes de objectos (indivíduos nos casos habituais), uma
função que projecta cada mundo m na classe (possivelmente nula) de objectos que
é a extensão do termo relativamente a m; como vimos, essa função é em geral
variável. Generalizando, a intensão de um predicado de aridade n é uma função
de mundos para classes de n-tuplos ordenados de objectos, uma função que projecta
cada mundo m na classe (possivelmente nula) de n-tuplos ordenados de
objectos que é a extensão do termo relativamente a m.
Finalmente, a intensão de uma frase é
uma função de mundos possíveis para valores de verdades, uma função que projecta cada
mundo m no valor de verdade V ou F (dada a bivalência) que é a extensão da frase
relativamente a m. Equivalentemente, e numa formulação mais corrente, a intensão
de uma frase declarativa é identificável com um conjunto de mundos possíveis: o
conjunto de todos aqueles mundos nos quais a frase é verdadeira. As formulações são
equivalentes pois, de um conjunto dado de mundos é possível obter a função de mundos
para valores de verdade que o caracteriza (essa função mapeia um mundo m no valor
V se e só se m pertence ao conjunto dado), e, conversamente, de uma função dada
de mundos para valores de verdade é possível obter o conjunto apropriado de mundos (esse
conjunto terá um mundo m como elemento se e só se a função dada mapear m
no valor V).
Estamos agora em condições de
identificar a tese central do intensionalismo modal. Trata-se da tese de que, em geral, significados
são intensões: o valor semântico ou conteúdo de uma expressão linguística é a
intensão da expressão, a função de mundos para objectos característica da expressão.
Em particular, o conteúdo de uma dada elocução/inscrição de uma frase declarativa num
contexto é uma certa função de mundos para valores de verdade, ou o conjunto de todos
os mundos possíveis nos quais ela é verdadeira; e esse conteúdo é igualmente o
conteúdo de qualquer crença ou atitude proposicional exprimível através da frase.
O intensionalismo modal identifica assim
proposições conteúdos completos, linguísticos ou mentais com conjuntos
de mundos possíveis. Intuitivamente, a ideia subjacente é a de que cada proposição
o conteúdo de uma afirmação ou de uma crença introduz uma partição de
todas as possibilidades ou alternativas em duas categorias: aquelas que estão de acordo
com o que a proposição estabelece (nas quais a proposição é verdadeira) e aquelas que
não estão (nas quais a proposição é falsa); e a proposição é ela própria
identificada com uma tal maneira de repartir circunstâncias, com a função de mundos
para valores de verdade que a representa. Se não houver mundos nos quais a proposição
é verdadeira, ou seja, se a proposição é uma falsidade necessária, então ela é
simplesmente identificada com o conjunto vazio. Se não houver mundos nos quais a
proposição é falsa, ou seja, se a proposição é uma verdade necessária, então ela
é simplesmente identificada com o conjunto de todos os mundos.
Note-se que, nesta construção,
proposições são entidades da teoria dos conjuntos e logo são, pelo menos num certo
sentido, entidades "extensionais": o sentido no qual é habitual dizer que
classes e outras entidades da teoria dos conjuntos são entidades extensionais. Daí a
infelicidade da classificação da teoria como intensionalista; todavia, a teoria é
intensionalista noutro sentido: no sentido em que, em todo o caso, concebe proposições
como intensões (embora estas sejam modalmente definidas e reduzidas a conjuntos).
O
intensionalismo modal tem muitos aspectos que o recomendam. Eis dois desses aspectos.
(1) Em primeiro
lugar, o intensionalismo modal proporciona uma maneira elegante e precisa de materializar
a ideia programática defendida por diversos linguistas e filósofos (6)
de que uma especificação do significado de uma frase declarativa deve ser de
algum modo executada através de uma especificação apropriada das suas condições de
verdade, de um conjunto de circunstâncias que sejam separadamente necessárias e
conjuntamente suficientes para que a frase seja verdadeira. Teorias semânticas que
adoptam esta ideia genérica chamam-se teorias verofuncionalistas do significado e
são usualmente contrapostas às chamadas teorias do significado como uso; no caso
das constantes lógicas e.g., a conjunção essa oposição é conspícua,
com uma explicação do significado das constantes lógicas em termos de (digamos) tabelas
de verdade a ser contraposta a uma explicação do seu significado em termos de conjuntos
de regras de inferência sintacticamente especificáveis.
O
intensionalismo modal é uma das variedades de verofuncionalismo. E pode-se dizer que é
uma variedade radical, na medida em que nela o significado ou conteúdo de uma afirmação
ou crença é integralmente reduzido a condições de verdade construídas à
maneira modal, como conjuntos de circunstâncias ou mundos possíveis. Todavia, é bom
reparar que no verofuncionalismo assim concebido cabe muita coisa. São igualmente
subsumíveis nele muitas outras teorias, completamente diferentes, do significado; entre
estas contam-se, por exemplo, determinadas versões do ponto de vista cognitivista, as
teorias referencialistas, e as teorias de Davidson e dos seus seguidores (7).
Em todo o caso, pode-se argumentar que, de entre as diversas espécies de
verofuncionalismo, o intensionalismo modal recomenda-se pelo facto de possuir os meios
conceptuais para dar a mais cabal e precisa expressão à ideia programática
verofuncionalista.
Para além
disso, o intensionalismo modal dá uma forma precisa à ideia, central ao
verofuncionalismo, de que proposições têm as condições de verdade que têm de um modo
não-contingente. Por outras palavras, se uma proposição p tem condições de
verdade C, é verdadeira se e só se C, então p não poderia não
ter C como condições de verdade (necessariamente, p é verdadeira se e só
se C). No intensionalismo modal, esta ideia é simplesmente reduzida à ideia
básica e incontroversa de que conjuntos tem os elementos que tem de forma
não-contingente, de que a identidade de um conjunto é integralmente determinada pela
identidade dos seus elementos no sentido em que, por exemplo, um conjunto com pelo
menos um objecto distinto como elemento seria um conjunto distinto. Como uma proposição
é um conjunto de mundos e cada um destes representa uma situação na qual a proposição
seria verdadeira (uma condição de verdade), a identidade da proposição é
integralmente determinada pela identidade de cada uma dessas situações (as condições
de verdade da proposição).
Por outro lado,
como é fácil verificar pelo que foi dito, é inegável que o intensionalismo modal
acomoda com muita facilidade um conjunto de características que são frequentemente
tomadas como definidoras da noção intuitiva de uma proposição. As mais importantes
dessas características são as seguintes: (a) proposições são objectos abstractos, sem
qualquer localização possível no espaço ou no tempo: como proposições são conjuntos
e conjuntos são objectos abstractos, esta característica é imediatamente garantida pelo
intensionalismo modal (o mesmo sucedendo às duas seguintes pela mesma razão); (b)
proposições são objectos independentes da mente, cuja existência não depende da
existência de uma mente que as apreenda, ou mesmo da existência de qualquer mente em
geral; (c) proposições são objectos independentes da linguagem, cuja existência não
depende da existência de uma linguagem (mesmo possível) na qual possam ser expressas, ou
mesmo da existência de qualquer linguagem em geral; (d) proposições são os conteúdos
de estados mentais intencionais como crenças e desejos e de de eventos linguísticos como
elocuções e afirmações; (e) proposições são aqueles objectos que são primariamente
portadores de valores de verdade (frases, afirmações, crenças, etc., possuem valores de
verdade apenas de um modo derivado, na medida em que os herdam de proposições); (f)
proposições possuem de forma não-contingente as suas condições de verdade, em
contraste com aquilo que sucede com itens linguísticos como frases.
(2) Em segundo
lugar, o intensionalismo modal permite explicar de forma satisfatória, em termos de
noções provenientes da teoria dos conjuntos, um conjunto importante de noções que se
referem a relações lógicas e semânticas entre, e a operações lógicas e semânticas
sobre, conteúdos proposicionais. Trata-se de relações e operações que qualquer teoria
adequada do conteúdo tem de acomodar, pois parece ser um facto que proposições são as relata
das relações em questão e as operanda das operações em questão. A
relação de implicação lógica entre conteúdos proposicionais p e q
é definida em termos da relação de inclusão entre conjuntos: p implica
logicamente q (ou q é uma consequência lógica de p) se e só se p
está incluída em q: o conjunto de mundos onde p é verdadeira está
contido no conjunto de mundos onde q é verdadeira. A relação de consistência
entre conteúdos p e q é definida em termos da operação de intersecção
entre conjuntos: p e q são proposições mutuamente consistentes se e só
se a intersecção de p com q não é vazia: há pelo menos um mundo que
pertence a ambas as colecções de mundos. A relação de equivalência lógica
entre conteúdos proposicionais p e q é reduzida a relação de identidade
entre p e q, a qual é por sua vez reduzida a uma identidade entre
conjuntos: p é logicamente equivalente a q se e só se p é
idêntica a q, ou seja, o conjunto de mundos onde p é verdadeira é
precisamente o conjunto de mundos onde q é verdadeira. A disjunção inclusiva de
conteúdos é definível em termos da operação de união entre conjuntos: a disjunção
inclusiva de p com q é o conjunto pÈ q:
o conjunto de todos os mundos onde p, ou q, ou ambas, são verdadeiras; e a negação
proposicional é definível em termos da operação de complementação sobre conjuntos: a
negação de p é o conjunto p: o conjunto de todos os mundos onde p
não é verdadeira. Naturalmente, a presunção é a de que as noções da teoria dos
conjuntos usadas na explicação são bem mais claras do que as noções da teoria do
conteúdo proposicional a explicar, uma presunção que parece ser razoável.
No entanto, o
intensionalismo modal tem sido alvo de um conjunto de argumentos poderosos que têm sido
tomados por muitos como conduzindo à rejeição em bloco do ponto de vista. Esses
argumentos são conhecidos sob a designação genérica de Argumentos da Omnisciência
Lógica. Todos eles procedem por redução absurdo, consistindo a estratégia seguida
em muitos deles em mostrar que o intensionalismo modal tem a seguinte consequência
alegadamente inaceitável: tornar falantes e portadores de estados mentais em criaturas
logicamente omniscientes, no sentido de sujeitos que estão invariavelmente em posição
de conhecer, afirmar, considerar, acreditar, julgar, etc., todas as proposições que
sejam consequências lógicas de proposições por eles conhecidas, afirmadas,
consideradas, acreditadas, julgadas, etc.
Uma das razões
pelas quais tais resultados indesejáveis são gerados consiste no facto de que, à luz do
intensionalismo modal, proposições são conjuntos e, como tal, objectos
desprovidos de qualquer género de estrutura interna, objectos que em geral não têm
quaisquer partes componentes postas em conjunto de acordo com um modo de combinação
dado. Com efeito, conjuntos são em geral objectos não estruturados, cuja identidade é
apenas sensível de acordo com o princípio da extensionalidade à
identidade dos seus elementos (e não a qualquer estruturação destes, ou maneira pela
qual eles possam ser agrupados). Apesar de as intensões de frases serem governadas por um
princípio de composicionalidade funcional, na medida em que elas são computadas a partir
das intensões das expressões componentes com base num método de combinação (em geral,
a aplicação de uma função a um argumento), essas intensões não têm elas próprias
quaisquer partes componentes, qualquer estrutura que se assemelhe à estrutura dos seus
veículos linguísticos (as frases das quais são intensões).
São a seguir
introduzidos três argumentos da omnisciência lógica, o último dos quais pode ser visto
como um caso especial do segundo. Assume-se em todos eles que proposições, construídas
como conjuntos de mundos, são os conteúdos semânticos quer de eventos linguísticos
(elocuções, afirmações, etc.) quer de estados mentais intencionais (crenças, desejos,
etc.)
(1) O primeiro
argumento consiste, primeiro, na observação de que, à luz do intensionalismo modal,
quem estiver em posição de afirmar, considerar, acreditar, conhecer, etc., uma
verdade necessária, afirma, considera, acredita, conhece, etc., nessa base todas
as verdades necessárias; e, depois, na observação de que tal é absolutamente
inaceitável. Note-se que, dado que quaisquer proposições necessariamente verdadeiras
são logicamente equivalentes, pois são verdadeiras em todos os mundos possíveis, há
uma única verdade necessária: a proposição que consiste no conjunto de todos os
mundos. Assim, a proposição que 2+2=4 e a proposição que a Aritmética Formal é
incompleta (o Teorema de Gödel de 1931) são uma e uma só proposição. Logo, se uma
pessoa e.g., uma criança de sete anos sabe ou diz que 2+2=4, então ela
sabe ou diz nessa base que a Aritmética Formal é incompleta. E se uma pessoa
e.g., um matemático experiente duvida que a Aritmética Formal seja incompleta
(por exemplo por suspeitar que a demonstração de Gödel contém uma falácia), então
duvida nessa base que 2+2=4. Ora, estes relatos de estados epistémicos (conhecimento,
dúvida) ou de actos linguísticos (dizeres, afirmações) parecem ser manifestamente
incorrectos ou mesmo falsos. (O argumento aplica-se mutatis mutandis a
proposições impossíveis ou necessariamente falsas, pois há também uma e uma só
destas proposições.)
Os detalhes do
argumento (1) são os seguintes. Há três premissas. (I) Seja x V que S a forma
geral de um relato de um acto linguístico ou de uma atribuição de uma atitude
proposicional. S é aí substituível por uma frase, V por um verbo para um
acto linguístico (dizer, afirmar, etc.) ou atitude proposicional
(saber, acreditar, etc.), e x por uma designação de um
falante ou sujeito de atitudes. Supõe-se uma análise relacional dos actos e atitudes em
questão: uma atribuição que exemplifique a forma é verdadeira num contexto se e só se
o sujeito ou falante denotado no contexto por x está de facto numa relação, a
relação denotada no contexto pelo verbo V, com uma proposição, a proposição
denotada no contexto pela expressão que S; esta proposição é a proposição expressa
pela frase S no contexto, ou seja, a proposição que S. (II)
Supõe-se que proposições são conjuntos de mundos possíveis. (III) Finalmente,
supõe-se que a proposição que S é uma proposição necessariamente
verdadeira. Das premissas (II) e (III) segue-se que qualquer proposição que seja uma
verdade necessária é idêntica à proposição que S. Assim, seja a
proposição que T uma proposição qualquer necessariamente verdadeira;
tem-se então a identidade: a proposição que S = a proposição que T.
Por fim, da conjunção deste resultado com a premissa (I), segue-se que qualquer
atribuição da forma x V que S implica logicamente uma atribuição da forma x
V que T (seja qual for o sujeito e a atitude ou o acto, e para quaisquer proposições
necessariamente verdadeiras). Considerando esta conclusão como inaceitável, e dado que a
análise relacional proposta na premissa (I) é incontroversa, pelo menos do ponto de
vista do espectro de teorias do conteúdo que estamos a considerar, só resta
"lançar as culpas" sobre a premissa (II), a tese definidora do intensionalismo
modal.
(2) O segundo
argumento consiste, primeiro, na observação de que, à luz do intensionalismo modal,
quem estiver em posição de ter atitudes de um certo género atitudes como
aceitar, afirmar, conhecer, acreditar, etc. em relação a uma proposição dada,
então terá nessa base tais atitudes em relação a qualquer proposição que seja uma
consequência lógica daquela proposição; e, depois, na observação de que tal é
inaceitável. Note-se se uma proposição p implicar logicamente uma proposição q,
então o conjunto de mundos que p representa está incluído no conjunto de mundos
que q representa. Logo, p é idêntica à sua conjunção com q: o
conjunto de mundos p é idêntico ao conjunto de mundos pÇ q.
Assim, se uma sujeito aceitar, afirmar, acreditar, conhecer, etc., uma proposição p,
então aceita, afirma, acredita, conhece, etc., a conjunção p e q (em que q
é uma consequência lógica de p); e segue-se daí que o sujeito aceita, afirma,
acredita, conhece, etc., q. Por exemplo, se uma pessoa e.g., um aluno de um
curso elementar de lógica conhece, aceita, ou afirma uma proposição que tenha a
forma da negação de uma conjunção, não-(p e q), então conhece, aceita, ou
afirma assim a proposição não-p ou não-q. De novo, estas descrições parecem
ser manifestamente incorrectas ou mesmo falsas: são bem conhecidas as dificuldades que os
estudantes de lógica têm, no início, com aplicações das leis de De Morgan.
Os detalhes do
argumento (2) são os seguintes. As premissas (I) e (III) são exactamente como no
argumento (1). A premissa (II) é agora a seguinte: a proposição que T é
uma proposição qualquer que seja uma consequência lógica da proposição que S.
E uma nova premissa é necessária para fazer correr o argumento, a premissa (IV), a qual
estabelece o seguinte: para algumas substituições de V (para verbos como dizer,
afirmar, acreditar, saber, e outros), o seguinte
esquema de inferência é válido: x V que S e T; logo, x V que T; um
exemplo é a inferência, manifestamente correcta, de João diz (afirma, sabe,
pensa) que a Malásia é uma monarquia e Portugal uma républica para João
diz (afirma, sabe, pensa) que Portugal é uma républica. Note-se que este esquema
de inferência, ao qual se pode chamar Fecho sob a Eliminação da Conjunção,
não é aplicável a todas as atitudes proposicionais e actos linguísticos; por exemplo,
o esquema gera uma invalidade se V for substituída por duvidar. Das
premissas (II) e (III) segue-se que a proposição que S é idêntica á
proposição que S e T. Logo, pela premissa (I), transita-se de x V que S
para x V que S e T. Aplicando então a premissa (IV) e restringindo
adequadamente as substituições de V, tem-se x V que T. Dado que a premissa
(IV) é fortemente plausível, o veredicto é similar ao do argumento (1), com a reductio
a ser exercida sobre a premissa (II).
(3) O terceiro
argumento consiste, primeiro, na observação de que, à luz do intensionalismo modal,
quem estiver em posição de aceitar, afirmar, acreditar, considerar, acreditar, conhecer,
etc., uma falsidade necessária, aceita, afirma, considera, acredita, conhece,
etc., nessa base todas as proposições; e, depois, na observação de que
tal é absolutamente inaceitável: como é que, por exemplo, uma pessoa pode estar em
posição de acreditar em tudo (caso acredite em apenas uma falsidade
necessária)? Note-se que, dado que uma proposição necessariamente falsa é identificada
com o conjunto vazio, pois não é verdadeira em nenhum mundo possível, segue-se que
qualquer proposição é uma consequência lógica de uma falsidade necessária: o
conjunto vazio de mundos está contido em qualquer conjunto de mundos. Assim, se uma
pessoa e.g., um matemático experiente acredita que a Aritmética Formal é
completa (por julgar erroneamente ter uma demonstração correcta da completude), então
ela acreditará nessa base no que quer que seja, e.g., que as baleias são peixes ou que
2+2=5. Talvez de uma forma ainda mais óbvia do que no Argumento (1), estas atribuições
parecem ser manifestamente incorrectas, ou mesmo falsas.
O argumento (3)
pode ser obtido do argumento (2) fazendo a proposição que S ser uma
falsidade necessária, o que garante imediatamente que a proposição que T
seja uma sua consequência lógica. Note-se ainda que o argumento (3) não é
válido para todas as atitudes proposicionais, mas apenas para aquelas que satisfazem o
esquema do Fecho sob a Eliminação da Conjunção; assim, o intensionalismo modal não
está comprometido, por exemplo, com o resultado de que quem duvidar de uma falsidade
necessária duvida de tudo.
O balanço que
pensamos que deve ser feito acerca do alcance e força dos argumentos da omnisciência
lógica é o seguinte. Apesar de eles não constituirem refutações defintivas do
intensionalismo modal (é difícil em Filosofia que algo seja uma refutação definitiva
do que quer que seja!), e poderem ser objecto de réplicas à primeira vista razoáveis (8), o fardo que impõem sobre essa teoria é gigantesco. De facto, é
extremamente difícil fazer passar a ideia de que as consequências acima notadas da
teoria, cuja implausibilidade parece ser conspícua, são afinal aceitáveis; é, por
exemplo, difícil erradicar as intuições no sentido de que uma pessoa que afirme que o
número dois não é ímpar não pode de todo ser vista como estando assim a
afirmar qualquer verdade necessária, em especial uma verdade matemática extremamente
complicada e ainda por demonstrar. Penso, por conseguinte, que devemos preferir teorias do
conteúdo que, em parte em virtude do facto de postularem conteúdos estruturados, não
têm aquele género de resultados e são imunes aos argumentos da omnisciência lógica;
nos parágrafos seguintes (2.2 e 2.3) consideramos as duas principais teorias, ou
famílias de teorias, desse tipo.
Todavia, o facto
de rejeitarmos o intensionalismo modal não significa nem que abandonemos o aparato
conceptual da semântica de mundos possíveis, nem que rejeitemos todas as teses
semânticas subscitas pela teoria. Em relação ao primeiro aspecto, penso que o conjunto
de noções e técnicas provenientes da semântica de mundos possíveis é um instrumento
extremamente conveniente para a clarificação de muitas noções e teses na área, pelo
que usá-lo-emos sempre que tal se revelar vantajoso; é bom notar que um tal aparato é
divorciável, não só da tese definidora do intensionalismo modal, a tese de que
proposições são colecções de mundos possíveis, como também de uma concepção
metafísica realista de pendor radical acerca de mundos possíveis, segundo a qual mundos
possíveis são objectos concretos auto-subsistentes, cuja existência é primitiva e não
uma mera construção lógica a partir de outros tipos de objectos (objectos actuais). Em
relação ao segundo aspecto, penso que algumas das ideias e princípios semânticos
adoptados pelo intensionalismo modal são inteiramente correctos e devem ser preservados,
especialmente a tese verofuncionalista de que há uma conexão estreita entre significado
e condições de verdade.
Posto isto,
voltemo-nos agora para as teorias referencialistas do conteúdo singular. Dado que tanto
elas como as teorias cognitivistas serão objecto de uma avaliação e discussão
detalhadas no próximo Capítulo, as descrições agora feitas devem ser tomadas como
meramente indicativas e apenas para fins de geografia conceptual. Elas serão retomadas e
desenvolvidas mais tarde. Reservamos também para essa altura uma inspecção minuciosa
dos prós e contras de cada um dos pontos de vista.
Numa teoria da referência directa, o
nosso conhecimento da referência, a maneira como o fragmento relevante da realidade é
objecto de cognição por parte de um falante ou de um sujeito de estados mentais, é em
geral irrelevante para a identificação do conteúdo singular. É, em especial,
irrelevante para a fixação do conteúdo linguístico de uma elocução de uma frase em
que uma expressão referencial singular (9) ocorra, bem como para a
fixação do conteúdo mental de uma crença ou de um pensamento especificável através
duma frase dessa natureza. Por outras palavras, há um divórcio entre, de um lado, a informação
que um falante ou um sujeito de estados mentais possui acerca de um objecto dado, e,
do outro lado, o conteúdo ou o significado das suas elocuções, crenças, desejos, etc.,
acerca desse objecto.
Com efeito, à
luz de uma teoria referencialista e considerando para já apenas o caso linguístico,
aquilo que uma expressão referencial singular contribui para o conteúdo linguístico,
relativamente a um contexto, de uma elocução de uma frase em que ocorra, consiste no,
e só no, objecto particular referido pela expressão no contexto. Entre outras
coisas, segue-se que se um tal objecto não existir, a expressão não tem qualquer valor
semântico no contexto, ou seja, nada é contribuído pela expressão; logo, dada a
composicionalidade do significado frásico, nada é dito por meio de uma elocução no
contexto de uma frase que contenha a expressão (uma consequência que, por sinal, muitos
acham implausível).
A tese
definidora do referencialismo relativamente a termos singulares (logicamente simples) pode
ser formulada através da seguinte equação :
(R)
Significado Singular=Objecto. O valor semântico de um uso de um termo singular t
num contexto c é idêntico ao objecto o (se existir) referido por t
em c.
Assim, por exemplo, aquilo que é
contribuído pelo nome próprio Vénus para a determinação do conteúdo da
minha elocução da frase Vénus é maior que Mercúrio no contexto aludido na
Secção anterior, ou para a proposição expressa pela frase no contexto, é o
planeta Vénus ele próprio. Do mesmo modo, aquilo que o nome Mário Soares
contribui para o conteúdo de uma elocução, num contexto apropriado, da frase
declarativa Mário Soares é fixe - ou, por sinal, da frase interrogativa
É Mário Soares fixe?, ou da frase optativa Oxalá Mário Soares seja
fixe! - é o indivíduo Mário Soares ele próprio (de carne e osso, com as
bochechas e tudo!). Por outras palavras, numa teoria da referência directa, os pontos na
estrutura das proposições que Vénus é maior que Mercúrio e que Soares é
fixe que correspondem a Vénus e Soares são vistos como
estando inteiramente preenchidos pelo planeta Vénus e por Mário Soares
(respectivamente). Assim, na semântica descritiva referencialista para termos singulares
simples, há apenas um nível semântico: o da extensão ou referência.
Por outro lado,
pelo menos à luz das versões mais habituais da teoria referencialista, o valor
semântico de um predicado monádico primitivo ou logicamente não-complexo
num contexto é identificado com uma propriedade, a propriedade expressa pelo predicado no
contexto. O valor semântico de um predicado diádico num contexto é identificado com uma
relação, a relação expressa pelo predicado no contexto; e assim por diante, de modo
análogo, para predicados de aridade maior que 2.
Se, de uma forma
pouco ortodoxa mas útil, usarmos o termo atributo para cobrir quer
propriedades (identificadas como atributos de aridade 1) quer relações (identificadas
como atributos de aridade superior a 1), a tese definidora do referencialismo
relativamente a predicados pode ser formulada através da seguinte equação:
(R)
Significado Predicativo=Atributo. O valor semântico de um uso de um predicado n-ário
P num contexto c é idêntico ao atributo P
expresso por P em C.
Convém notar que os atributos
(propriedades e relações) expressos por predicados não são aqui concebidos como
entidades puramente extensionais, como conjuntos de n-tuplos ordenados dos indivíduos (no
caso de atributos de primeira ordem) que satisfazem os predicados. A propriedade expressa
por um predicado monádico não é de todo identificada com aquilo a que é habitual
chamar a extensão do predicado, ou seja, o conjunto de todos os objectos que o
satisfazem; e a relação expressa por um predicado diádico não é de todo identificada
com aquilo a que é habitual chamar a sua extensão, ou seja, o conjunto de todos
os pares ordenados de objectos que o satisfazem. Por conseguinte, predicados monádicos
co-extensionais, como os já famosos predicados bípede sem penas e ser
humano, não são vistos como exprimindo a mesma propriedade e logo como tendo o
mesmo conteúdo.
Digamos que,
numa teoria referencialista, propriedades e relações são no mínimo entidades
intensionais, não no sentido de serem intensões à maneira do intensionalismo modal, ou
no sentido de serem conceitos ou representações conceptuais, mas no sentido de serem
entidades governadas por um princípio modal de identidade do seguinte género. Atributos
(propriedades, relações) são idênticos se, e só se, são necessariamente
co-exemplificáveis, ou seja, têm a mesma extensão em todos os mundos possíveis. Assim,
de acordo com esta noção de atributo, nada impede que propriedades associadas a
conceitos diferentes, como a propriedade de ser água e a propriedade de ser H20,
ou a propriedade de ser equilátero e a propriedade de ser equiângulo,
sejam a mesma propriedade. Por conseguinte, nada impede que a pares de termos como água/H20
e triângulo equilátero/triângulo equiângulo seja atribuído o
mesmo valor semântico relativamente a contextos dados de uso. Em suma, os valores
semânticos atribuídos pelo referencialismo a predicados estão numa posição
intermédia entre, de um lado, as suas extensões (conjuntos de objectos), e, do outro, os
conceitos expressos (intensões no sentido tradicional do termo).
Consequentemente,
numa teoria referencialista, aquilo que é, por exemplo, contribuído pelo predicado
português é maior que para a determinação do conteúdo linguístico da
minha elocução da frase Vénus é maior que Mercúrio no contexto
anteriormente indicado, ou para a proposição expressa pela frase no contexto, é
a relação ser maior que. Do mesmo modo, aquilo que o predicado é fixe
contribui para o conteúdo de uma elocução, num contexto apropriado, da frase Mário
Soares é fixe, é a propriedade de ser fixe. Por outras palavras, numa
teoria da referência directa, os pontos na estrutura das proposições que Vénus é
maior que Mercúrio e que Soares é fixe que correspondem a é maior que
e é fixe são vistos como inteiramente preenchidos pela relação e
propriedades mencionadas; estas são postas em conjunto com os pontos que correspondem aos
nomes envolvidos de acordo com uma determinada sintaxe proposicional, um determinado modo
de formar uma proposição a partir de elementos dados. Assim, na semântica descritiva
referencialista para predicados, há uma bifurcação de níveis semânticos: o nível
mais fino dos valores semânticos (atributos) e o nível mais rude das extensões
(conjuntos).
Finalmente, o
conteúdo linguístico de um uso de uma frase do género sob consideração num contexto
é aquilo que é habitual designar por uma proposição singular, uma estrutura ou
sequência ordenada de indivíduos e atributos (no caso de predicações de primeira
ordem). Estes são os indivíduos e os atributos associados aos termos singulares e
predicados intervenientes na frase como seus valores semânticos no contexto; assim, a
estrutura da proposição singular é um reflexo fiel da estrutura da frase usada para a
exprimir.
A tese
definidora do referencialismo relativamente a frases pode então ser formulada através da
seguinte equação (para simplificar, consideramos apenas o caso de predicações
monádicas):
(R) Significado
Frásico=Proposição Singular. O valor semântico de um uso de uma frase da forma Pt
num contexto c, em que t é um termo singular e P um predicado
monádico, é a proposição singular composta pelo objecto o referido por t
em c e pela propriedade P expressa por P em c, sendo estes
elementos combinados na proposição através de um modo apropriado (em geral, a relação
de predicação ou exemplificação de um atributo por um indivíduo).
Desta maneira, o conteúdo linguístico
da minha elocução da frase Vénus é maior que Mercúrio no contexto
aludido, ou a proposição expressa pela frase no contexto, é algo que pode ser
representado pelo par ordenado que consiste no par ordenado dos indivíduos Vénus e
Mercúrio e na relação Ser Maior que, designadamente o par
<<Vénus,
Mercúrio>, A Relação Ser Maior que>;
ou, se quisermos tornar explícito o modo
de combinação proposicional envolvido, pelo par
<<<Vénus,
Mercúrio>, A Relação Ser Maior que>, Exemplificação>.
E o conteúdo linguístico de uma
elocução de Soares é fixe é a proposição singular representável pelo
par
<Soares,
A Propriedade de Ser Fixe>;
ou pelo par
<<Soares,
A Propriedade de Ser Fixe >, Exemplificação>.
Deve-se dizer que a notação de pares
ordenados não é aqui mais do que uma mera conveniência, utilizada para captar
visualmente a ideia de que as proposições postuladas pela teoria referencialista são
finamente estruturadas, possuindo uma estrutura que reflecte a estrutura dos seus
veículos linguísticos (10). Não há qualquer presunção no sentido de
uma identificação literal de proposições singulares com pares ordenados ou, em geral,
com quaisquer outras entidades da teoria dos conjuntos.
As observações
precedentes aplicam-se mutatis mutandis ao caso mental. Assim, aquela parte do
conteúdo de uma crença que tenha a propriedade de representar um objecto particular no
mundo é vista como consistindo no, e só no, objecto particular em questão; por
conseguinte, a relação de representação mental vista aqui como a relação
entre um conteúdo (uma proposição) e o objecto acerca do qual ele é
dissolve-se, neste caso, na relação de identidade (11). Por exemplo,
aquele elemento constituinte do conteúdo da minha crença de que Vénus é maior que
Mercúrio que de algum modo corresponde a Vénus é simplesmente identificado com o
planeta Vénus ele próprio. E aquela parte componente do conteúdo do meu desejo de que
Mário Soares seja fixe que de algum modo corresponde a Mário Soares é
exaustivamente dada no indivíduo Mário Soares ele próprio. Do mesmo modo, a componente
predicativa do conteúdo de uma crença ou desejo é identificada com um determinado
atributo (propriedade, relação), por exemplo a propriedade de ser fixe no caso do meu
desejo que Mário Soares seja fixe. Consequentemente, os conteúdos de estados mentais
intencionais singulares são, na teoria referencialista, identificados com proposições
singulares. Estas são precisamente os conteúdos linguísticos das frases canonicamente
empregues na especificação desses conteúdos: o conteúdo da minha crença de que
Soares é fixe é, deste modo, a proposição singular que Soares é fixe, a qual é
representável pelo par ordenado acima.
Uma teoria
directamente referencial dispõe assim, aparentemente, de uma maneira simples e eficaz de
explicar a intencionalidade presente nesses casos e de lançar luz sobre os problemas (c)
e (d) identificados na Seccão 1, os problemas da determinação da referência
linguística e da determinação da referência mental. Para além disso, dada a equação
proposta de significado com referência, a explicação proporcionada é ipso facto
uma explicação para os problemas (a) e (b) acerca das relações de significado
linguístico e de significado mental. A minha crença de que Vénus é maior que
Mercúrio é acerca de Vénus porque o planeta Vénus ele próprio entra directamente
no seu conteúdo; e o meu desejo de que Soares seja fixe é acerca de Soares porque
Soares ele mesmo entra directamente no seu conteúdo (e o caso linguístico é tratado da
mesma maneira) (12). Todavia, isso apenas significa que, do ponto de
vista de uma teoria da referência directa, há apenas um problema onde parecia haver dois
(o problema da relação de significado e o problema da relação de referência). Há
nisso certamente uma vantagem, a da economia; mas resta ainda resolver esse
problema.
Em suma, no
ponto de vista Milliano, o modo pelo qual o objecto particular referido, através da
linguagem ou através do pensamento, se apresenta cognitivamente ao falante, ou ao sujeito
de estados mentais, é irrelevante para os fins de uma teoria do conteúdo e é
simplesmente excluído do conteúdo singular, linguístico ou mental.
Muita coisa pode
ser dita a favor das teorias referencialistas. E muita coisa pode ser dita contra elas.
Mais tarde procederemos à sua discussão. Por agora, contentemo-nos com uma menção
breve de alguns dos aspectos que as tornam mais atraentes. Em primeiro lugar, há a inocência
semântica (por assim dizer) do referencialismo. Os valores semânticos propostos para
as diferentes categorias de expressões, bem como para as suas contrapartes mentais, não
têm nada de bizarro, são em geral entidades mundanas, itens e objectos no mundo:
indivíduos (Vénus), características desses indivíduos (a propriedade de ser um
planeta), e situações extra-linguísticas (Vénus ser um planeta). A este aspecto está
associado um outro, de grande importância, o qual também milita a favor do
referencialismo: o facto de estar assim garantida sem qualquer dificuldade a conexão
entre a linguagem e a realidade, as palavras e as coisas, e a conexão entre a mente e a
realidade, os pensamentos e as coisas; a conexão é feita via significados,
linguísticos ou mentais, pois estes são coisas. Finalmente, as teorias
referencialistas não têm dificuldade alguma em acomodar as características atrás
introduzidas como definindo a noção intuitiva de uma proposição. Com efeito,
proposições singulares são claramente objectos abstractos, independentes da mente e da
linguagem, os conteúdos de estados mentais intencionais como crenças e desejos e de de
eventos linguísticos como elocuções e afirmações, os portadores primários de valores
de verdade, e as entidades que possuem condições de verdade de um modo não-contingente.
Consideremos agora, com igual brevidade e
sem proceder de momento a qualquer avaliação, os traços gerais da posição rival, o
cognitivismo.
Em claro
contraste com o referencialismo, numa teoria cognitivista do conteúdo singular, o nosso
conhecimento da referência, a maneira como o fragmento relevante da realidade é objecto
de cognição por parte de um falante ou de um sujeito de estados mentais, é em geral
relevante para a identificação do conteúdo singular. É, em especial, relevante para a
fixação do conteúdo linguístico de uma elocução de uma frase em que uma expressão
referencial singular (logicamente simples e não-vazia) ocorra, bem como para a fixação
do conteúdo de uma crença ou de um pensamento especificável através duma frase desse
género. Por outras palavras, há uma conexão estreita entre, de um lado, a informação
que um falante ou um sujeito de estados mentais possui acerca de um objecto de
referência dado, e, do outro lado, o conteúdo ou o significado das suas elocuções,
crenças, desejos, etc., acerca desse objecto; e a conexão em questão vai no sentido de
o conteúdo mental e linguístico ser determinado, pelo menos parcialmente, com base nessa
informação.
Com efeito, à
luz de uma teoria cognitivista e considerando para já apenas o caso linguístico, aquilo
que a expressão referencial singular contribui para o conteúdo linguístico de uma
elocução, relativamente a um contexto, de uma frase em que ocorra, consiste pelo menos
em parte num determinado modo como o objecto particular referido pela expressão no
contexto se apresenta cognitivamente ao falante. Por outras palavras, o significado
da expressão não se reduz ao objecto referido e, em certas versões, não inclui
de todo o objecto referido e é necessariamente composto por uma representação
cognitiva desse objecto. Se um tal objecto não existir, e se uma tal representação
estiver disponível mesmo que nada lhe corresponda (o que é o caso em algumas variedades
de cognitivismo), não se segue de todo que a expressão não tenha qualquer valor
semântico no contexto; pode ser assim evitada a consequência das teorias
referencialistas atrás notada.
A tese
definidora do cognitivismo com respeito a termos singulares pode ser formulada através da
seguinte inclusão:
(R)
Significado SingularÊ Modo de Apresentação de um Objecto. O valor
semântico de um uso de um termo singular t num contexto c é
necessariamente constituído por um modo cognitivo de apresentação MAPo
do objecto o (se existir) referido por t em c.
Assim, por exemplo, aquilo que o nome
próprio Vénus contribui para a determinação do conteúdo linguístico da
minha elocução da frase Vénus é maior que Mercúrio no contexto indicado,
ou para a proposição expressa pela frase no contexto, inclui uma certa maneira através
da qual o planeta Vénus me é cognitivamente dado, a qual é por mim associada com o nome
Vénus. Ilustrando, o planeta Vénus pode-me ser cognitivamente apresentado
como o segundo planeta do sistema solar, ou como o corpo celeste visto em tal e
tal posição em tal e tal ocasião, ou como o planeta favorito de Soares, etc.
E, do mesmo modo, aquilo que o nome Mário Soares contribui para o conteúdo
de uma elocução, num contexto apropriado, da frase declarativa Mário Soares é
fixe - ou, por sinal, da frase interrogativa É Mário Soares fixe?, ou
da frase optativa Oxalá Mário Soares seja fixe! - inclui necessariamente uma
certa perspectiva cognitiva sobre o indivíduo Mário Soares, um agregado de informação
sobre Soares, a qual é associada pelo falante com o nome Mário Soares. Por
outras palavras, numa teoria Fregeana, os pontos na estrutura das proposições que
Vénus é maior que Mercúrio e que Soares é fixe que correspondem a Vénus
e Soares são vistos como incluindo algo como concepções de Vénus e
de Soares (respectivamente). Assim, na semântica descritiva cogntivista para termos
singulares simples, há uma bifurcação de níveis semânticos: o nível mais fino dos
valores semânticos (modos de apresentação de objectos) e o nível mais rude da
referência ou extensão (objectos).
Por outro lado,
podemos supor para os nossos propósitos imediatos que o valor semântico de um predicado
monádico num contexto inclui ou, em certas versões, é identificado com um
modo cognitivo de apresentação de uma propriedade, a propriedade associada ao predicado
no contexto; esta propriedade é concebida, do ponto de vista cognitivista, como sendo a referência
do predicado no contexto. O valor semântico de um predicado diádico num contexto é
identificado com um modo cognitivo de apresentação de uma relação, a relação
referida pelo predicado no contexto; e assim por diante, de modo análogo, para predicados
de aridade maior que 2.
Se continuarmos
a usar o termo atributo para cobrir quer propriedades quer relações, a tese
definidora do cognitivismo relativamente a predicados pode ser expressa através da
seguinte inclusão:
(R)
Significado PredicativoÊ Modo de Apresentação de um Atributo. O valor
semântico de um uso de um predicado n-ário P num contexto c inclui
necessariamente um modo cognitivo de apresentação MAPP do atributo P
referido por P em C.
Embora tal não seja obrigatório,
podemos (e é conveniente) construir os atributos postulados pelo cognitivismo à maneira
referencialista, como entidades governadas pelo princípio modal de individuação em
termos de co-exemplificação necessária mencionado antes. Assim, uma e a mesma
propriedade, por exemplo a propriedade de ser ser água (= a propriedade de ser
H20), pode ser cognitivamente apresentada de maneiras diferentes, ou sob
conceitos diferentes. O conceito ÁGUA e o conceito H20 são conceitos diferentes da mesma
propriedade, o mesmo sucedendo com os conceitos TRIÂNGULO EQUILÁTERO e TRIÂNGULO
EQUIÂNGULO. Por conseguinte, a pares de termos como água/H20
e triângulo equilátero/triângulo equiângulo podem ser
atribuídos, numa teoria cognitivista do conteúdo, valores semânticos diferentes
relativamente a contextos dados de uso. Assim, no que respeita a significados
predicativos, o cognitivismo discrimina mais finamente do que o referencialismo: a um e um
só significado predicativo referencialista podem corresponder dois significados
predicativos cognitivistas. No que respeita à componente predicativa de um conteúdo
linguístico ou mental, há no cognitivismo três níveis semânticos: extensões,
atributos, e modos de apresentação de atributos; no referencialismo há apenas dois, os
dois primeiros.
Consequentemente,
numa teoria cognitivista, aquilo que é, por exemplo, contribuído pelo predicado
português é maior que para a determinação do conteúdo linguístico da
minha elocução da frase Vénus é maior que Mercúrio no contexto
anteriormente indicado, ou para a proposição expressa pela frase no contexto, contém
uma representação cogntiva da relação ser maior que, a relação referida pelo
predicado no contexto (concebida no sentido atrás especificado). Do mesmo modo, aquilo
que o predicado é fixe contribui para o conteúdo de uma elocução, num
contexto apropriado, da frase Mário Soares é fixe, é um modo de
apresentação da propriedade de ser fixe (concebida no sentido atrás
especificado). Por outras palavras, numa teoria cognitivista, os pontos na estrutura das
proposições que Vénus é maior que Mercúrio e que Soares é fixe que
correspondem a é maior que e é fixe são vistos como incluindo
(no todo ou em parte) modos predicativos de apresentação; estes são postos em conjunto
com os pontos que correspondem aos nomes envolvidos de acordo com uma determinada sintaxe
proposicional, um determinado modo de formar uma proposição a partir de elementos dados.
Finalmente, o
conteúdo linguístico de um uso de uma frase do género sob consideração num contexto
é aquilo que podemos designar por uma proposição Fregeana, uma estrutura ou
sequência ordenada de modos de apresentação de indivíduos e de atributos (no caso de
predicações de primeira ordem). Estes são os modos associados aos termos singulares e
predicados intervenientes na frase como seus valores semânticos no contexto; assim,
também aqui a estrutura da proposição espelha fielmente a estrutura da frase usada para
a exprimir. Para simplificar, estamos obviamente a supor que os valores semânticos de
termos singulares e predicados são estritamente identificados com modos de
apresentação singulares e predicativos (respectivamente).
A tese
definidora do cognitivismo relativamente a frases pode então ser formulada através da
seguinte equação (considerando apenas o caso de predicações monádicas):
(R) Significado
Frásico=Proposição Fregeana. O valor semântico de um uso de uma frase da forma Pt
num contexto c, em que t é um termo singular e P um predicado
monádico, é uma proposição composta por um modo de apresentação MAPo do
objecto o referido por t em c e por um modo de apresentação MAPP da propriedade P
expressa por P em c, sendo estes elementos combinados na proposição
através de um modo de combinação apropriado (em geral, o modo que articula modos
singulares com modos predicativos).
Desta maneira, o conteúdo linguístico
da minha elocução da frase Vénus é maior que Mercúrio no contexto
aludido, ou a proposição expressa pela frase no contexto, é algo que pode ser
representado pelo par ordenado que consiste num par ordenado que consiste em modos de
apresentação de Vénus e Mercúrio e num modo de apresentação da relação Ser
maior que, designadamente o par
<<MAPVénus,
MAPMercúrio>, MAPA Relação Ser Maior que>.
E o conteúdo linguístico de uma
elocução de Soares é fixe é a proposição singular representável pelo
par ordenado
<
MAPSoares, MAPA Propriedade de Ser Fixe>.
Assim, na semântica descritiva
referencialista para frases, há três níveis semânticos: o nível mais fino dos modos
de apresentação frásicos (proposições Fregeanas), o nível intermédio da referência
(situações extra-linguísticas apresentadas), e o nível mais rude da extensão (valores
de verdade).
As observações
precedentes aplicam-se mutatis mutandis ao caso mental. Aquela parte do conteúdo
de uma crença que tenha a propriedade de representar um objecto particular no mundo
consiste, pelo menos parcialmente, num determinado modo de apresentação cognitiva desse
objecto; por conseguinte, a relação de representação mental não é, neste caso,
dissolvida na relação de identidade. Assim, por exemplo, aquele elemento constituinte do
conteúdo da minha crença de que Vénus é maior que Mercúrio que corresponde a Vénus
envolve um certo género de relação cognitiva em que eu estou com o planeta Vénus. E
aquela parte componente do conteúdo do meu desejo de que Mário Soares seja fixe que
corresponde a Mário Soares inclui uma certa perspectiva cognitiva que eu tenho acerca de
Mário Soares. Do mesmo modo, a componente predicativa do conteúdo de uma crença ou
desejo é identificada com um determinado modo de apresentação de um atributo
(propriedade, relação), por exemplo uma representação da propriedade de ser fixe no
caso do meu desejo que Mário Soares seja fixe. Consequentemente, os conteúdos de estados
mentais intencionais singulares são, na teoria cognitivista, identificados com
proposições Fregeanas. Estas são precisamente os conteúdos linguísticos das frases
canonicamente empregues para especificar esses conteúdos: o conteúdo da minha crença de
que Soares é fixe é, deste modo, a proposição Fregeana que Soares é fixe, a
qual é representável pelo par ordenado acima. Assim, no que respeita a significados
proposicionais, o cognitivismo também discrimina mais finamente do que o referencialismo:
a uma e uma só proposição singular podem corresponder duas proposições Fregeanas.
Uma teoria
cognitivista também dispõe, aparentemente, de uma maneira de explicar a intencionalidade
presente naqueles casos e de lançar luz sobre os problemas (c) e (d) identificados na
Seccão 1, os problemas da determinação da referência linguística e da determinação
da referência mental; muito embora a explicação seja aqui indirecta e mediata, em
contraste com a explicação directa e imediata disponível nas teorias referencialistas.
Se adoptarmos a suposição razoável de que os modos de apresentação singulares ou
predicativos determinam de algum modo as entidades que apresentam, respectivamente
indivíduos e atributos, então, dado que tais modos são as partes componentes dos
conteúdos mentais e linguísticos, segue-se que de uma explicação dada para os
problemas (a) e (b) acerca das relações de conteúdo mental e linguístico pode-se
deduzir uma explicação para os problemas (c) e (d) acerca das relações de referência
mental e linguística. A minha crença de que Vénus é maior que Mercúrio é
acerca de Vénus porque contém um modo de apresentação que determina o planeta Vénus;
e o meu desejo de que Soares seja fixe é acerca de Soares porque contém um modo
de apresentação que determina Soares (e o caso linguístico é tratado da mesma
maneira). Tal como no referencialismo, temos aqui uma economia de problemas: quatro
reduzidos a dois; mas de forma indirecta, com a ajuda da premissa de que o significado
determina em geral a referência.
Em suma, no
ponto de vista cognitivista, o modo pelo qual o objecto particular referido, através da
linguagem ou através do pensamento, se apresenta cognitivamente ao falante, ou ao sujeito
de estados mentais, é maximamente relevante para os fins de uma teoria do conteúdo e é
simplesmente incorporado no conteúdo singular, semântico ou mental.
Muita coisa pode
ser dita a favor das teorias cognitivistas. E muita coisa pode ser dita contra elas. Mais
tarde procederemos à sua discussão e avaliação. Por agora, contentemo-nos com uma
menção breve de alguns dos aspectos que as tornam mais atraentes. Em primeiro lugar, há
o aspecto representacionalista do cognitivismo, a ideia de que o conteúdo deve
reflectir a maneira como o falante ou o sujeito de estados mentais vê ou representa o
mundo, a ideia de que conteúdos mentais e linguísticos devem incorporar representações
dos objectos (indivíduos e atributos) extra-linguísticos e extra-mentais referidos. A inocência
semântica do referencialismo é assim perdida, pois os valores semânticos propostos
para as diferentes categorias de expressões, bem como para as suas contrapartes mentais,
não são já em geral entidades mundanas, itens e objectos no mundo. Mas é satisfeita
uma intuição importante precisamente no sentido oposto: a intuição de que conteúdos
se devem situar essencialmente ao nível da representação, e não ao nível daquilo que
é representado, devendo consistir em representações de itens e objectos no mundo. As
vantagens desta característica do cognitivismo tornam-se manifestas quando, por exemplo,
se considera a eficácia com a qual a teoria aparentemente lida com problemas como aqueles
que em seguida introduzimos, problemas acerca da relação entre conteúdo e cognição.
2.4 Informatividade e Opacidade
Ter uma ideia clara acerca de quais são
os traços essenciais de uma teoria correcta do conteúdo singular é importante,
não só para fins filosóficos e semânticos, mas também para os fins de uma teoria
psicológica, de uma explicação do comportamento racional de falantes e sujeitos de
estados mentais. Por conseguinte, é importante proceder a uma avaliação da disputa
corrente entre concepções directamente referenciais e concepções cognitivistas do
conteúdo singular. Proponho-me contribuir para uma tal avaliação e discutir
extensivamente um certo número de aspectos nucleares dessa disputa. Os aspectos em
questão dizem sobretudo respeito ao tratamento dado naqueles pontos de vista a um
conjunto de fenómenos significativos que envolvem em geral a relação entre referência
e cognição, e, no caso do conteúdo linguístico, o significado cognitivo do uso de uma
língua natural.
Eis dois
exemplos de fenómenos dessa natureza, os quais desempenham um papel crucial na nossa
discussão. A razão da sua posição central é a de que se trata de problemas tais que
proporcionar soluções satisfatórias para eles é visto por muita gente como uma
condição geral de adequabilidade de qualquer teoria do conteúdo.
(1) O primeiro
fenómeno é o da chamada Informatividade, ou do carácter potencialmente
informativo, de determinados conteúdos singulares. Trata-se da aparente existência de
possíveis diferenças em valor informativo entre conteúdos de elocuções de pares de
frases construídas a partir de expressões referenciais singulares co-designativas, isto
é, expressões empregues para referir o mesmo objecto particular. O caso clássico,
introduzido por Frege, é dado no par de frases de identidade A Estrela da Manhã é
a Estrela da Manhã e A Estrela da Manhã é a Estrela da Tarde: o
conteúdo de uma elocução da segunda frase parece ser potencialmente informativo, em
contraste com o conteúdo de uma elocução da primeira (o qual parece consistir numa
trivialidade). O fenómeno da Informatividade pode ser igualmente descrito em termos de
conteúdo mental, quando se consideram conteúdos de estados mentais especificáveis
através de frases com aquelas características: compare-se, por exemplo, o meu pensamento
de que a Estrela da Manhã é a Estrela da Manhã com o meu pensamento de que a Estrela da
Manhã é a Estrela da Tarde; ou o meu pensamento de que a Estrela da Manhã aparece de
manhã com o meu pensamento de que a Estrela da Tarde aparece de manhã. E o fenómeno
pode ser também descrito com respeito à componente predicativa de conteúdos
linguísticos ou mentais. Considerem-se frases como Tudo o que é água é água
e Tudo o que é água é H20: do mesmo modo, o conteúdo de uma
elocução da segunda frase parece ser potencialmente informativo, em contraste com o
conteúdo de uma elocução da primeira (o qual parece consistir numa trivialidade).
(2) O
segundo fenómeno é o da chamada Substituibilidade ou Opacidade.
Trata-se da aparente existência de possíveis falhanços de substituição salva
veritate de expressões referenciais singulares co-designativas ao ocorrerem em certas
construções linguísticas usualmente classificadas como intensionais,
especialmente frases empregues para a atribuição de atitudes proposicionais (de estados
epistémicos, como conhecimentos e crenças, ou de estados volitivos, como desejos). Por
exemplo, dadas como premissas (i) a frase de identidade A Estrela da Manhã
é a Estrela da Tarde e (ii) uma atribuição de crença como Os
antigos astrónomos acreditavam que a Estrela da Manhã é um planeta, parece não
se poder legitimamente usar a chamada Lei da Eliminação da Identidade (13)
e obter como conclusão a atribuição de crença Os antigos astrónomos acreditavam
que a Estrela da Tarde é um planeta; por conseguinte, supondo que a primeira
atribuição é verdadeira, o seu valor de verdade não é aparentemente preservado após
a substituição do termo singular A Estrela da Manhã pelo termo singular
co-designativo A Estrela da Tarde. Também o fenómeno da Opacidade pode ser
descrito em termos de conteúdo mental. Basta considerar, por exemplo, o aparente facto de
uma pessoa racional poder estar, numa certa ocasião, no estado mental de duvidar que a
Estrela da Manhã seja a Estrela da Tarde e não estar de todo, nessa ocasião, no estado
mental de duvidar que a Estrela da Manhã seja a Estrela da Manhã; ou o aparente facto de
uma pessoa racional poder estar, numa certa ocasião, no estado mental de saber que a
Estrela da Manhã aparece de manhã e não estar de todo, nessa ocasião, no estado mental
de saber que a Estrela da Tarde aparece de manhã. O mesmo género de observações
aplicam-se às componentes predicativas de conteúdos linguísticos ou mentais: basta
considerar, por exemplo, o aparente facto de uma pessoa racional poder estar, numa certa
ocasião, no estado mental de acreditar que ninguém duvida que tudo o que é água é
água e não estar de todo, nessa ocasião, no estado mental de acreditar que ninguém
duvida que tudo o que é água é H20.
As caracterizações anteriormente feitas
dos pontos de vista Fregeano e Milliano são, deliberadamente, bastante genéricas. E há
uma diversidade de maneiras, actuais ou meramente possíveis, através das quais elas
podem ser preenchidas e detalhadas; o que dá origem à existência de uma pluralidade de
teorias particulares, actuais ou meramente possíveis, no interior de cada uma das
concepções.
Uma parte
razoável da nossa investigação é dedicada à consideração de determinadas versões
híbridas, por assim dizer, de cada um dos pontos de vista. Da concepção directamente
referencial são isoladas versões tais como aquelas que têm sido propostas por
semanticistas Neo-Millianos como David Kaplan, John Perry, e Nathan Salmon; estas versões
distinguem-se por um aparente recurso a noções acerca das quais a suspeita pode surgir
de que são afinal indiscerníveis de noções que fazem parte do aparato conceptual
habitualmente utilizado em teorias Fregeanas. No que respeita ao campo cognitivista, é
sobretudo isolada a chamada concepção de re dos modos de apresentação
singulares adoptada por semanticistas Neo-Fregeanos como Gareth Evans, John McDowell, e
Christopher Peacocke; do mesmo modo, sobre tais variantes do ponto de vista cognitivista
pode recair a suspeita de que elas contêm afinal ingredientes que são alegadamente
característicos de teorias da referência directa.
O carácter
híbrido das versões seleccionadas torna-as extremamente interessantes do ponto de vista
dialéctico, uma vez que são imediatamente vulneráveis a uma série de argumentos
importantes que podemos rotular de argumentos notacionais ou terminológicos.
Argumentos deste género, dos quais nos vamos ocupar com algum detalhe, têm sido
recentemente aduzidos em ambas as direcções: por proponentes da concepção directamente
referencial contra o ponto de vista cognitivista, e por proponentes deste ponto de vista
contra aquela concepção. O efeito geral visado é invariavelmente o de uma dissolução
conceptual no ponto de vista defendido do ponto de vista atacado, o qual se alega ser uma
mera variante terminológica daquele. Assim, no campo Fregeano, o argumento tem sido
recorrentemente utilizado no sentido de que uma teoria Milliana da referência singular,
na sua tentativa de acomodar fenómenos relacionados com a cognição e com a relevância
cognitiva do uso da linguagem, pode ser vista como sendo, em essência, uma simples
variante notacional de uma concepção cognitivista. Simetricamente, no campo Milliano, o
argumento tem sido recorrentemente utilizado no sentido de que uma teoria Fregeana da
referência singular baseada em modos de apresentação De Re, especialmente no que
respeita ao tratamento dado ao caso da referência demonstrativa e indexical, pode ser
vista como sendo, em essência, uma simples variante notacional de uma concepção
directamente referencial.
A direcção
global da argumentação que aduzo com respeito ao problema do conteúdo singular,
linguístico e mental, é a seguinte.
Em primeiro
lugar, tenciono mostrar que a tese da variação terminológica é, em geral, errónea; e
que quer o argumento notacional Fregeano acima delineado, quer a sua contraparte Milliana,
são incorrectos (14). A conclusão é assim atingida de que estamos, na
realidade, confrontados com teorias distintas do conteúdo singular, teorias que
são de facto conceptualmente irredutíveis uma à outra (mesmo se as tomarmos como
representadas nas versões híbridas antes mencionadas). Esta conclusão reveste-se de
algum significado, pois a tendência predominante na literatura mais recente parece ir no
sentido de favorecer a tese da variação terminológica, numa direcção ou na outra.
Em segundo
lugar, e bem mais importante, argumenta-se que a disputa entre o ponto de vista
directamente referencial e o ponto de vista cognitivista deve ser, em geral, decidida a
favor deste último. Mostra-se, em particular, que o género de equipamento conceptual
empregue por uma teoria Milliana está longe de poder proporcionar um tratamento
satisfatório para um conjunto nuclear de factos que envolvem a relação entre a
linguagem e a actividade mental e cognitiva; os atrás aludidos fenómenos da
Informatividade e da Opacidade são paradigmas dessa classe de factos, resistindo a um
tratamento directamente referencial. Argumenta-se ainda que uma maquinaria conceptual com
as características daquela que é usada nas teorias cognitivistas, construída em torno
da noção de um modo de apresentação cognitiva de um objecto, é estritamente
indispensável para lidar com fenómenos daquele género de uma maneira adequada. Todavia,
apesar de os modos de apresentação serem vistos como semanticamente eficazes, no ponto
de vista que defendo eles não são vistos como constituintes do conteúdo proposicional
singular, o qual é inteiramente dado em proposições singulares, construídas à maneira
referencialista.
Da nossa
discussão emerge uma doutrina na qual os modos de apresentação postulados, embora em
geral ancorados em informação - tipicamente, informação perceptual acerca de
aspectos do meio-ambiente do falante ou do sujeito de estados mentais, não são de
natureza puramente conceptual e dependem, quanto à sua existência e identidade,
dos objectos particulares por eles apresentados. À doutrina emergente subjaz, por um
lado, uma concepção externalista acerca da natureza da mente, e, por outro lado,
uma concepção realista acerca da referência (15). De acordo com
o ponto de vista externalista acerca do mental, a existência e a identidade de alguns dos
nossos estados mentais depende essencialmente da existência e da identidade de itens
exteriores à mente, os quais são tipicamente particulares materiais situados no
meio-ambiente imediato do sujeito dos estados mentais. Tal dependência significa o
seguinte: por um lado, se o item que é o objecto intencional de um desses estados mentais
não existisse, então o estado mental ele próprio deixaria de existir; por outro lado,
se o item que é o objecto intencional do estado mental fosse substituído por um item
qualitativamente indiscernível, uma réplica perfeita, então estariamos em presença de
um novo estado mental, distinto daquele. Por conseguinte, sob o externalismo, a esfera do
mental não goza de qualquer autonomia e é, por assim dizer, invadida pela esfera do
não-mental, formando um contínuo com esta. De acordo com o ponto de vista realista
acerca da referência, os objectos particulares referidos, através da linguagem ou
através do pensamento, são vistos como subsistindo, e como estando agrupados em certas
categorias naturais, independentemente da mente e do seu esquema de representação
conceptual e de classificação da realidade.
1 Mesmo que a história
ou a exegese incidam sobre autores relativamente recentes (e.g. Quine ou Kripke), isso
não faz com que ela deixe de ser história ou exegese.
2 Cognição
é aqui empregue no sentido genérico de aquisição e processamento de informação de
qualquer tipo.
3 Fizemos
já uma alusão ao ponto de vista no parágrafo 1.5 da Secção 1.
4 Robert Stalnaker é um
dos mais conhecidos proponentes de uma teoria modal do conteúdo. Ver as suas colecções
de ensaios Inquiry (Cambridge, Mass., The MIT Press, 1987) e a recente Context
and Content (Oxford, Oxoford University Press, 1999).
5 Ver o Capítulo I do ensaio clássico de Rudolf Carnap Meaning and Necessity. A Study in Semantics and Modal Logic, Chicago and London, University of Chicago Press, 1947,
6 Entre os filósofos que subscrevem a ideia estão notoriamente Frege, Wittgenstein (no Tractaus), e Davidson. Do lado da linguística, veja-se por exemplo Gennaro Chierchia e Sally McConnell-Ginet, Meaning and Grammar. An Introduction to Semantics, Cambridge, Mass., The MIT Press, 1990.
7 Note-se que em algumas
destas teorias não é subscrita a tese forte de uma equação estrita entre significado e
condições de verdade.
8 Veja-se R. Stalnaker, Inquiry, Cambridge, Mass., The MIT Press, 1987, Capítulo I.
9 De acordo com o que
estipulámos na Secção 1 e se não houver qualquer indicação explícita em contrário,
estamos apenas a considerar expressões referencias singulares logicamente simples,
por exemplo nomes próprios e termos indexicais não-descritivos.
10 Repare-se, a
propósito, que o referencialismo discrimina proposições de um modo mais fino do que o
intensionalismo modal: a uma e à mesma intensão proposicional podem corresponder
proposições singulares distintas.
11 A menos que os
dispositivos de representação mental sejam colocados num nível diferente do conteúdo
mental.
12 Obviamente, isto não
resolveria completamente o problema pois haveria ainda um facto que ficaria por explicar,
designadamente porque é que Vénus ou Soares, e não outras coisas ou pessoas, entram no
conteúdo da minha crença de que Vénus é maior que Mercúrio, ou do meu desejo que
Soares seja fixe. Este é o problema da determinação da referência mental, ao qual já
aludimos e o qual é introduzido mais adiante.
13 A Lei de Eliminação
da Identidade é dada no esquema de inferência Ft,
t=t' / Ft', em que t,t' são termos singulares, Ft é uma frase
qualquer que contenha uma ou mais ocorrências de t, e Ft' resulta de Ft substituindo
uma ou mais ocorrências de t por t.
14 Embora por razões
diversas, naturalmente.
15 Note-se que a
adopção destas duas concepções faz com que o ponto de vista defendido neste livro
fique, neste aspecto, mais longe das teorias cognitivistas tradicionais, nas quais ambas
as concepções são habitualmente rejeitadas, e mais perto das teorias Millianas, nas
quais elas são habitualmente subscritas.