Nota sobre o Argumento da Escolha Criteriosa
por João Branquinho
1. Uma teoria do sentido (conteúdo, valor
semântico) de nomes próprios pode ser vista como uma proposta específica de
preenchimento do espaço em branco situado à direita do seguinte género de esquema de
identidade (em que NN é um nome próprio
pertencente a uma linguagem natural l e f é um falante competente de l):
O sentido de um uso de NN por f
num contexto c é _____
2. Uma teoria da referência para nomes
próprios pode ser vista como uma proposta específica de preenchimento dos espaços em
branco situados à direita dos seguintes géneros de esquemas explicativos (em que o
bicondicional é apropriadamente interpretado no sentido de uma explicação):
Um uso de NN por f num contexto c refere-se a um objecto x porque
(em virtude de) ___x ___
Um uso de NN por f num contexto c refere-se a um objecto x se, e
somente se, ___ x ___
3. A teoria descritivista clássica do sentido
de nomes próprios pode ser vista como a seguinte proposta específica de completar o
esquema em 1. (a letra j é
substituível por um predicado, simples ou complexo):
O sentido de um uso de NN por f
num contexto c é o sentido de uma definida
singular (em uso atributivo) O j tal
que f associa O j a NN em c.
4. A teoria descritivista clássica da referência
de nomes próprios é um corolário da teoria descritivista clássica do sentido para
nomes próprios tomada em conjunção com a seguinte tese, a qual é um caso especial do
princípio geral segundo o qual o sentido determina a referência:
O sentido de uma descrição definida singular (em uso
atributivo) O j num
contexto c determina da seguinte maneira um
objecto como sendo a denotação de O j em c: O j denota um objecto x em c se,
e só se, x e só x satisfaz em c o predicado j.
Assim, a teoria descritivista clássica do sentido de nomes
é também uma teoria da referência de nomes, a qual pode seer representada como
consistindo nas seguintes propostas específicas de completar os esquemas em 2:
Um uso de NN por f num contexto c refere-se a um objecto x porque
x é o objecto denotado por uma descrição
definida singular (em uso atributivo) O j tal
que f associa O j a NN em c.
Um uso de NN por f num contexto c refere-se a um objecto x se, e
somente se, x é o objecto denotado por uma
descrição definida singular (em uso atributivo) O
j tal que f
associa O j a NN em c.
5. O argumento da Escolha Criteriosa contra a teoria
descritivista clássica do sentido de nomes pode ser delineado do seguinte modo:
(a) Primeiro, para muitas substituições de nomes no
lugar de NN, muitos falante associam, não
uma, mas uma pluralidade de descrições definidas. Por exemplo, um falante apropriado
poderá associar, com o nome Mário Soares, não apenas descrições como
O fundador do PSP e O Presidente da Républica Portuguesa em 1994,
mas também descrições como O meu vizinho e O político português que
o Joaquim mais detesta.
(b) Segundo, a teoria clássica exige que se proceda,
nestes casos, a uma escolha: de entre todas essas descrições, é necessário escolher
uma que seja adequada para dar o sentido do nome no idiolecto do falante (e logo para
determinar a sua referência).
(c) Terceiro, coloca-se naturalmente a questão de
saber que género de princípio ou critério é que se deve adoptar para proceder a uma
tal selecção.
(d) Finalmente, argumenta-se que um tal critério
parece ser extremamente difícil de encontrar. Logo, a teoria descritivista clássica nem
sequer está em posição de poder ser posta de pé.
6. É possível introduzir pelo menos dois tipos de
réplica ao argumento da escolha criteriosa:
(i) A primeira réplica consiste em argumentar que a
dificuldade é apenas aparente, que é afinal possível isolar um princípio adequado para
a escolha da descrição apropriada; obviamente, tal princípio tem de ter uma
aplicabilidade geral, tem de ser empregue para todos os falantes e para todos os nomes.
(ii) A segunda réplica consiste simplesmente em rejeitar a
premissa crucial do argumento da escolha criteriosa, a ideia de que, do ponto de vista da
teoria decritivista clássica, um escolha tem de ser executada nos casos em que há
diversas descrições disponíveis.
7. Há duas maneiras naturais de desenvolver a
réplica (i).
Uma é na direcção individualista, por assim dizer.
Ela consiste em fazer a saliência da descrição ser determinada por factos individuais
acerca do falante. A proposta é, aproximadamente, a de escolher, de entre todas as
descrições associadas pelo falante com o nome, aquela descrição que desempenha o papel
mais importante de todas na vida cognitiva e mental do falante. Uma maneira possível de
implementar a proposta seria a de extrair essa descrição a partir de informação acerca
da propensão do falante para aceitar imediatamente certas frases que contêm o nome e
certas descrições como verdadeiras, ou para reconhecer de imediato como válidas certas
inferências executadas a partir de ou para frases desse género. Em suma, a descrição
apropriada seria a descrição cuja associação com o nome seria a mais forte da
perspectiva interna do falante, com a força a ser medida da maneira acabada
de sugerir. Assim, por exemplo, no caso do meu uso presente de Aristóteles,
provavelmente a descrição seleccionada para dar o sentido do nome no meu idiolecto
seria, à luz daquele critério, algo como O inventor da teoria lógica do
silogismo.
Mas há duas objecções centrais a esta proposta. Em
primeiro lugar, pelo menos em alguns casos, é de presumir que existam diversas
descrições igualmente salientes do ponto de vista da vida cognitiva e mental do falante,
por exemplo um par de descrições entre as quais não haja de todo qualquer diferença
assinalável em força associativa; nesse caso, a proposta individualista não poderia
sequer ser posta de pé. Em segundo lugar, mesmo nos casos em que a selecção pudesse ser
aparentemente executada, ela teria algumas consequências contra-intuitivas; por exemplo,
se a descrição escolhida para dar o sentido de Aristóteles no meu idiolecto
for a indicada, então uma inferência como Aristóteles gostava de cães. Logo,
alguém inventou uma teoria lógica seria válida, o que (no mínimo) parece um
pouco estranho.
8.
A outra maneira de desenvolver a réplica (i) é na direcção social, por
assim dizer. Ela consiste em fazer a
saliência da descrição ser determinada por factos sociais acerca da comunidade
linguística do falante. A proposta é, aproximadamente, a de escolher, de entre todas as
descrições associadas pelo falante com o nome, aquela descrição que desempenha o papel
mais importante de todas na vida social do falante, na sua interacção com outros
utilizadores competentes do nome. Uma maneira possível de implementar a proposta seria a
de extrair essa descrição a partir de informação acerca das crenças que o falante tem
acerca de crenças dos outros falantes que sejam especificáveis através do nome.
Interessaria aqui saber o que é que ele ou ela acreditam acerca das disposições dos
outros falantes para aceitar imediatamente como verdadeiras certas frases que contêm o
nome e certas descrições, ou para reconhecer de imediato como válidas certas
inferências executadas a partir de ou para frases desse género. Em suma, a descrição
apropriada seria a descrição cuja associação com o nome seria a mais forte do ponto de
vista da sua salência social tal como representável pelo falante. Assim, por exemplo, no
caso do meu uso presente de Aristóteles, provavelmente a descrição
seleccionada para dar o sentido do nome no meu idiolecto seria, à luz daquele critério,
algo como O filósofo grego que escreveu a Metafísica e a Ética Nicomaqueia
Todavia, a primeira das objecções erguidas contra o critério individualista,
submetida a ajustamentos apropriados, pode ser aplicada ao critério social: pode
igualmente haver casos em que mais do que uma descrição é socialmente saliente. A essa
objecção junta-se a seguinte. O critério social pode ser plausível com respeito a
nomes próprios de figuras públicas: celebridades, personagens históricos, políticos
famosos, etc. Mas é de difícil aplicação a muitos nomes por nós usados no quotidiano:
nomes de amigos, de filósofos menores, de conhecimentos ocasionais, de advogados
falhados, etc.
9. Quanto à réplica (ii), a ideia subjacente é a de que
não é preciso de todo escolher; e se não é preciso escolher, também não é preciso
ter um critério de escolha. Mas afinal como é que não é preciso escolher? A resposta
é a de que é possível, para cada utilizador competente f de um nome NN, arranjar uma única
descrição tal que f associe essa descrição
com NN e ela dê o sentido do nome NN no idiolecto de f. Basta construir uma descrição, na maioria
dos casos bastante complexa, que simplesmente incorpore toda a informação que f tenha disponível acerca do portador do nome NN. Nessa descrição estarão assim incluídos,
não apenas predicados social ou individualisticamente salientes, mas também predicados
social ou individualmente muito pouco ou nada salientes. Por exemplo, a descrição
complexa da qual o nome Aristóteles seria uma abreviatura no meu idiolecto
poderia ser algo como O filósofo grego estagirita, mestre de Alexandre Magno,
inventor do silogismo, favorito do meu amigo Manuel, destestado pelo meu inimigo
Joaquim,
. Esta proposta tem a vantagem de bloquear a objecção de uma
possível igualdade de saliência. Mas o holismo acerca do significado que é nela
assumido, a ideia de que todo e qualquer predicado associado pelo falante com o nome é definidor
do nome, é fatal à proposta. Basta reparar que, supondo que o predicado favorito
do meu amigo Manuel é feito entrar na descrição complexa total que eu associo com
Aristóteles, uma consequência lógica de uma frase como Aristóteles
era um génio seria (no meu idiolecto) a frase Eu tenho amigos (ou algo
do género).
ãJoão Branquinho 2000